A Criação – Episódio 3 – Rogério Pietro

No terceiro episódio da série A Criação, Rogério Pietro, autor de Gabriel Querubim e os Guardiões dos Sonhos, fala um pouco (eu não diria pouco ..) sobre seu processo de criação. Muito mais do que o processo criativo do autor, Rogério também dá algumas dicas sobre como inovar na criação literária!

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Episódio 3 – Rogério Pietro

Criando Querubins – ou O Processo Criativo na Escrita Inovadora

Criar a trama de um livro é como montar um quebra-cabeça. Em primeiro lugar é preciso ter as peças, enquanto a habilidade de uni-las se aprende com o tempo e muita prática. Digo isto porque acredito que a criatividade é a capacidade de juntar coisas que nunca haviam estado juntas antes, dando a elas sentido, coerência e, acima de tudo, utilidade. Para alguns, a criatividade talvez seja a aptidão para fazer surgir do nada uma coisa que não existia antes. No entanto, partindo daquela lei da física que diz que nada se cria ou se destrói, mas tudo se transforma, fica mais fácil entender o que eu quero passar a respeito do processo criativo na literatura de ficção-científica e fantástica.

Escrever um livro não é atestado de criatividade para ninguém. Basta visitar uma livraria daquelas bem grandes para perceber como existem livros muito parecidos uns com os outros, a maioria deles pegando a onda do sucesso de algum que veio em primeiro lugar. Assim, escrever uma obra de um menino bruxo que precisa lutar contra forças malignas do mundo da magia não pode ser considerado um trabalho criativo depois que J. K. Rowling passou a fazer sucesso. A verdadeira criatividade pressupõe inovação, e não uma nova versão.

Mas como é possível inovar se nada é criado a partir do nada? Lá em cima eu disse que preciso das peças do quebra-cabeça. E o que seriam essas peças senão o meu conhecimento?… Ora, se eu sou fã de um livro e quero escrever outro com o mesmo tema, mas só conheço o assunto por aquele livro, preciso tomar cuidado para não estar usando exatamente as mesmas peças que o autor daquela obra usou. Afinal, dois quebra-cabeças idênticos vão dar origem às mesmas figuras.

Por causa disso, eu acredito que um autor de ficção-científica precisa conhecer e entender muito de ciência. Não dá para imaginar o contrário. Como falar de teletransporte sem entender o que a física diz a respeito? Como ambientar um livro em uma lua de Saturno sem entender o que uma atmosfera de amônia pode fazer na fuselagem de alumínio de uma nave espacial? Como convencer o leitor que o seu personagem mutante foi gerado por causa de radiação, sem saber os tipos e propriedades das radiações ou mesmo o que é uma mutação genética?

Já um autor de fantasia, se quiser falar de reinos, guerreiros, fadas ou dragões precisa estudar o assunto e beber de diversas fontes, senão corre o risco de criar um resumo mal feito do Senhor dos Anéis. Precisa pesquisar o que se sabe a respeito de bruxas, de hierarquia militar, de estrutura política de uma monarquia, além de mitologias, história e outras coisas.

O estudo ao qual me refiro deve ser feito antes – muito antes – de o autor pensar em escrever um livro. Não estou falando aqui do conhecimento que precisa ser buscado para, por exemplo, saber se existiam espadas de aço antes do século V enquanto descrevo que o arcebispo da Capadócia portava uma lâmina de aço. Não, este tipo de pesquisa não faz parte do processo criativo. Ele serve apenas para verificar a existência de incongruências.

Para mim, as idéias surgem como peças soltas. Se eu ficar sabendo que encontraram uma menina inca congelada há 500 anos nos Andes, essa informação pode ser arquivada como uma peça. Depois, se eu descubro que os incas tinham uma lenda que falava a respeito de um totem sagrado de ouro, isso é outra peça. Estudando um pouco de história eu percebo que os espanhóis chegaram à região mais ou menos na mesma época em que a menina foi congelada… Partindo desses elementos, dessas peças que antes pareciam desconectadas, eu posso criar um livro contando como a garota era a guardiã do totem e de como ela protegeu o futuro da humanidade escondendo essa peça em um lugar onde os espanhóis jamais se atreveriam a procurar e, se fossem, morreriam congelados como ela. Junto a isso um pouco de magia, elementais, deuses e criaturas da floresta e está pronta uma história de fantasia que trata de ganância, guerras e sacrifício.

Acabo de criar alguma coisa do nada? Não. Apenas uni peças que antes pareciam não ter relação umas com as outras. Eu não estava pensando em criar uma história antes de ter as peças. Foi o contrário: as peças trouxeram a história.

Quando comecei a pensar no livro Gabriel Querubim e os Guardiões dos Sonhos, o processo não foi diferente. Eu tinha vontade de criar uma história em que o personagem principal fosse um menino de sete anos de idade que se envolvesse com as aventuras mais bizarras e improváveis do universo. Poderia ser em uma nave espacial, em uma máquina do tempo, em um portal para multiversos, dimensões paralelas ou outra coisa qualquer. A idéia ficou arquivada algum tempo. Mais tarde, estudei um fenômeno chamado desdobramento, também conhecido como viagem astral. Algumas teorias dizem que nossa alma se desloca do corpo enquanto dormimos. Ela pode passear pelo mundo dos vivos e visitar o plano astral, mundo dos mortos ou plano espiritual. Durante este fenômeno, que acontece quando as pessoas dormem, eu poderia me encontrar com qualquer um que também estivesse dormindo, o que é bem legal. OK! Mais uma peça.

Outra teoria que parte das crenças de religiões orientais ou espiritualistas do Ocidente nos diz que o plano astral é mais plástico do que o nosso. Em outras palavras, tudo o que se pensa e se sente com intensidade pode ganhar forma, cor, cheiro e vida fictícia. São as chamadas formas-pensamento. Uma pessoa fissurada por caveiras, por exemplo, criaria esses elementos em seu ambiente astral. Alguém que ficou com medo do monstro que viu em um filme poderia gerar mentalmente o monstro naquele plano. De noite, ao dormir, ela se encontraria com sua forma-pensamento e se lembraria do encontro como se fosse um pesadelo. Mais uma peça!

A partir desses elementos, comecei a conceber um livro em que um menino descobre que seus sonhos não são apenas imaginação, mas vivências em uma dimensão paralela, o mundo astral. Já que as pessoas podem se encontrar naquele plano, Gabriel seria convidado a fazer parte de uma equipe de crianças com as mais variadas nacionalidades, e a missão deles seria eliminar as formas-pensamento – chamadas de temulentos no livro – ajudando na limpeza daquele mundo. As crianças trabalhariam durante a noite e viveriam vidas normais de dia.

O conceito de querubim veio à minha mente de uma forma absolutamente herética. Historicamente, o querubim é uma figura fantástica com corpo de boi, leão, asas de águia e cabeça humana. Tal criatura vem da Babilônia e da Assíria. Muito mais tarde, quando a Igreja Romana dominou o Ocidente, o querubim passou a ser representado como um anjinho, um menino peladinho de pureza e futilidade inigualáveis. Tendo mais esta peça em mãos, eu descrevi em meu livro uma situação em que as crianças que trabalham no plano astral enquanto dormem foram confundidas com anjos na Idade das Trevas, por isso receberam o nome de querubins. Eis a origem do título da obra.

Juntando as imagens passadas por Dante Alighieri em sua Divina Comédia, bem como os conceitos que adquiri ao estudar religiões espiritualistas, em especial o Espiritismo, incluí no livro o conceito de zonas astrais, daí a presença das Trevas – onde vivem espíritos inferiores – e do mundo dos arcanjos – onde ficam os superiores. Para completar o caldeirão onde ferveu meu quebra-cabeça, considerei a evolução das espécies de Charles Darwin, o hipnotismo, sonhos lúcidos, estados alterados de consciência e uma boa dose de bom humor.

O resultado foi a aventura do menino que se encontra com outras pessoas enquanto dorme. Por causa de suas habilidades especiais, ele foi convocado a fazer parte de uma equipe de querubinos composto pelo africano Amaruro e pelo japonês Kosuke. Essas crianças têm a missão de eliminar os temulentos que geram os pesadelos e algumas doenças, e fazem isto os transformando com a força do pensamento. Ao longo da aventura, acontece uma coisa muito séria que obriga Gabriel e seus amigos a descerem até uma região inóspita e muito perigosa, as Trevas, um lugar em que os querubinos raramente são chamados a atuar, e de onde podem não voltar.

Até onde me lembro, foi este o processo criativo que usei no livro. Ele se torna automático como tempo. Espero que ele possa ajudar outros autores a conhecerem suas próprias metodologias, e também guiar os que estão começando e não sabem ao certo como criar uma história fantástica.

 Sobre o autor

Apaixonado pela Vida e por tudo aquilo que foge do comum, já escrevi oito livros e tenho idéias para mais outros oitenta. Meu sonho é que as pessoas que leiam minhas obras sejam tão tocadas quanto foram ao ler Gabriel Querubim, o livro que foi muito bom escrever!

Sobre Gabriel Querubim
[confira o post de divulgação do livro clicando aqui]

Gabriel, uma garoto de 7 anos de idade, descobre que seus sonhos não são apenas devaneios, mas lembranças vivas de uma dimensão paralela que todas as pessoas vivenciam quando dormem. Tendo o poder de se tornar lúcido nos sonhos, Gabriel é recrutado para se tornar um Querubino, um grupo de crianças que atuam no Mundo Real dos sonhos desde a antiguidade. A missão dos querubinos é combater as formas-pensamento que causam os pesadelos, também chamadas de temulentos. Gabriel entra para a equipe do africano Amaruro e do japonês Kosuke, dois meninos que vivem na em países distantes. Os três passam a se encontrar todas as noites enquanto dormem e se tornam grandes e inseparáveis amigos. Eles vivem aventuras fantásticas no mundo dos sonhos e descobrem que podem existir coisas muito mais perigosas do que pesadelos. Gabriel Querubim e os Guardiões dos Sonhos é uma obra de fantasia e aventura repleta de descobertas e emoção.

Saiba mais sobre Gabriel Querubim em http://www.gabrielquerubim.com.br.

Acompanhe também as novidades sobre o autor e o universo do livro em http://gabrielquerubim.blogspot.com.br.

Para comprar o livro acesse http://www.correiojovem.com.br/guardioesdossonhos.

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http://a1.twimg.com/profile_images/437119069/foto_tiago_reasonably_small.jpg Tiago Castro é publicitário, roteirista, jurado e co-organizador do Concurso Hydra, agitador cultural, aspirante a escritor de literatura fantástica, além de estrategista de comunicação dos eventos Fantasticon e Sarau Fantástico.

Publicitário, estrategista de conteúdo, organizador do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira e coorganizador dos eventos Fantasticon e Sarau Fantástico.

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