A Criação – Episódio 4 – Eric Novello

E eis que a série A Criação chega ao seu quarto episódio e esta semana trazendo um pouco dos bastidores da mente criativa de Eric Novello, autor dos livros Dante – O Guardião da Morte e Neon Azul. Também organizou a coletânea Fantasias Urbanas e a série Amores Proibidos, todos pela editora Draco.

Episódio 4 – Eric Novello

Três características importantes. A primeira delas é a dependência do ócio. Não no sentido do não trabalho, mas no do espaço vazio, da vagabundagem produtiva, que é o meu estado natural.

Eu uso os vazios para criar, seja o que for, inclusive este texto. É dentro deles que eu organizo as pontas soltas e flerto com as possíveis conexões. Quem leu o Neon Azul ou o Sombra no Sol sabe que isso se reflete bastante nas minhas histórias, com muito sendo contado dentro desses espaços de inexistência e, por consequência, dentro da cabeça do leitor e não na folha de papel.

Se é na hora da escrita que decido o que não será dito, é no momento do falso ócio que escolho o que contar. E a minha fonte máxima de espaço vazio, hoje, é a caminhada. Andando na Avenida Paulista ou, às vezes, dentro de espaços fechados, os filtros são ligados, as informações selecionadas e, de repente, encontro a resposta que eu preciso, junto com um tanto de perguntas. Algumas delas só respondidas em projetos que nascem três, quatro, cinco anos depois desta faísca inicial.

Isso é importante por ir contra a falácia da produção diária como única via, pregada por autores e agentes americanos e repetida aqui de forma papagueada. Vale lembrar que esse discurso vem de pessoas acostumadas a um mercado de produção de lixo em massa e que vivem desse ciclo de coleta e reciclagem (incluindo aí alguns autores que leio, e que vivem de produzir dois ou três livros por ano). É só uma opção e não uma regra. Na maioria das vezes, uma opção ruim.

A segunda é a relação com o espaço. Antes de começar a escrever o livro, já sei qual será o tamanho final, e isso se deve muito aos rascunhos imaginários que faço no papel, a uma escaleta de pensamentos baseada em rabiscos, literalmente. Divido as folhas em quadrados, penso quantos capítulos terá cada ato, faço divisões em unidades de conteúdo, isso tudo determinado pelos assuntos que pretendo abordar, e só então vou atrás da história.

Em outras palavras, monto visualmente a minha estrutura para poder me concentrar depois em como preenchê-la. Durante todo o processo de escrita, fico então com papéis espalhados pelas paredes e quadros de cortiça, olhando para os quadrados em branco, nos quais vou anotando títulos e frases de uma ou duas linhas que definam conjuntos de capítulos inteiros. Conforme a necessidade, movo esses blocos de lugar, adequando-os à evolução da trama.

Por fim, tenho os personagens. Eles são o meu tijolo, minha unidade básica de construção. Surgem antes que eu saiba qualquer outro detalhe do que está por vir. A partir deles penso na ambientação e no entorno, no mundo em que eles viverão, e decido qual será o recorte de vida a ser contado, algo que herdei do Mike Leigh.

Não me interessa impedir o fim do mundo, salvar a princesa do bruxo imperial, impedir o renascimento de um poder antigo. Me interessa contar algo mais próximo desses personagens, entendê-los e representá-los de dentro para fora, jamais o inverso. E se isso coincidir com os recortes dos demais personagens do livro, muito bem. Senão, está bom para mim assim.

Como organizador, estou mais para um gerenciador de conteúdo. Dou aos autores o máximo de liberdade para desenvolverem suas ideias e estimulo os caminhos mais criativos. Quando trabalho com gente que já conheço, sei o que esperar e isso facilita bastante. Ao mesmo tempo em que sou taxativo quanto à qualidade do texto, evito ao máximo ser intrusivo nas decisões de criação e na linguagem do autor.

No Fantasias Urbanas, por exemplo, você encontrará nove textos completamente diferentes, cada um deles representando a essência dos seus autores, para o bem e para o mal, já que são essas múltiplas facetas que compõem tão belamente a literatura. O que tem de meu ali, o fator organizador, é justamente a proposta da diversidade de estilos dentro da fantasia.

SOBRE O AUTOR

Eric Novello estreou na literatura em 2004 e publicou 4 livros desde então, tendo participado também de diversas coletâneas.

Multitarefas, é tradutor técnico e literário, e consultor da Ed. Draco. Presta serviços de leitura crítica e copidesque, tendo trabalhado com vários autores da nova geração. Entre seus trabalhos como organizador de coletâneas, destacam-se Fantasias Urbanas e a coleção Amores Proibidos, esta voltada para o público jovem adulto.

A lista completa de seus trabalhos como autor, organizador e tradutor encontra-se disponível na seção Publicações.

Formado como roteirista no Instituto Brasileiro de Audiovisual, Eric Novello publicou mais de 250 textos críticos sobre cinema, música e literatura no Jornal de Arte Aguarrás. Atualmente, é editor do portal colaborativo Cidade Noturna, que visa divulgar a literatura especulativa brasileira e estimular o pensamento crítico em torno de sua evolução.

Nascido no Rio de Janeiro, Eric Novello decidiu se integrar à cultura e ao caos de São Paulo, onde reside atualmente. É admirador de gatos e dono de um Maine Coon chamado Odin. Cultiva cactos e perde horas em seu PlayStation, não dispensando uma boa luta de Mortal Kombat nem passeios em Arkham.

ALGUMAS OBRAS DE ERIC NOVELLO

Neon Azul: Um homem que não dorme nunca. Um advogado com um cramulhão na garrafa. Um assassino que atravessa espelhos. Um escritor que não consegue prender sua personagem no papel. Esses são alguns dos frequentadores de Neon Azul, um bar diferente para cada cliente. Escolha o seu lugar, faça o seu pedido. Depois do primeiro drinque, você jamais será o mesmo.

Neon Azul é uma boate onde habitam os seus mais sombrios desejos e tentações. É um lugar diferente, repleto de acontecimentos estranhos, mas que poderia estar na esquina da sua casa ou no caminho entre o trabalho e o metrô. Enquanto acompanha a história do bar e de funcionários e clientes peculiares, descubra que realizar seus desejos pode ter efeitos colaterais imprevisíveis.

Homens de negócio, prostitutas, artistas e boêmios imersos em uma solidão que só quem passeia pela noite já experimentou, um sentimento comum aos que vivem cercados de gente, com um sorriso no rosto e um copo na mão.

Nesse jogo de luzes e sombras que revelam a fantasia e encobrem a realidade, está nas mãos do leitor a decisão de acreditar ou não no que lê e decidir quem conta as verdades e as mentiras ao longo da história.
Assim como o insone gerente do bar, o leitor terá muito o que lembrar quando deitar na cama e fechar os olhos por própria conta e risco.

Dante – O Guardião da Morte: O romance Dante, o Guardião da Morte é um suspense passado na Roma de Julius Caesar, que mistura história real com mitologia egípcia. Seu enfoque é a ambientação histórica e o modo como deuses e homens compartilhavam da mesma importância na vida das pessoas. Para quem gosta de intrigas e reviravoltas, Dante é um prato cheio.

Basicamente, o leitor acompanhará a história de Ítalo Tarnapo, general de Julio Cesar com algumas habilidades especiais que garantem boa vantagem no campo de batalha. Lá pelas tantas, Ítalo descobre que alguém está armando para assassinar o ditador republicano.

Como nada é fácil na vida do general, exatamente na mesma semana, três deuses egípcios resolvem vir a Roma para procurar um Guardião para o livro de Anúbis, que contém rituais de imortalidade e necromancia. Tarnapo precisará se dividir em mil para lidar com a ira dos deuses e ainda salvar Cesar do assassinato.

Fantasias Urbanas (org.): O gênero fantasia vive um excelente momento no Brasil e no mundo, marcando presença nas listas de best-sellers, conquistando espaço na prateleira dos leitores e até despertando certa devoção. Sofrendo influência de gêneros que vão do policial ao terror, a fantasia é um território onde não há limites para a imaginação.Parte integrante desse sucesso, as cidades onde se passam as histórias acabam ficando tão conhecidas quanto os personagens que as habitam, entrando para o imaginário de seus leitores como verdadeiras referências.

Fantasias Urbanas é uma visita guiada pelo organizador Eric Novello a mundos fantásticos muito diferentes entre si, mas todos com um ponto em comum: a união entre entretenimento e qualidade. Nove autores irão levá-lo por esse passeio: Ana Cristina Rodrigues, Antonio Luiz M. C. Costa, Carlos Orsi, Douglas MCT, Erick Santos Cardoso,  José Roberto Vieira, Rafael Lima, Rober Pinheiro e Tiago Toy. Os destinos incluem encontros com reis, castelos e magia; visitas a necromantes vindos de Atlântida; julgamentos em sociedades movidas a vapor; fugas no meio de tiroteios, metamorfos e leões gigantes; paradas para descansar em uma cidade prisão com um homem-morcego e seu rei-máquina; tensões entre um casal em crise no meio de um apocalipse zumbi; descobertas de um mundo tomado por deuses, múmias e vampiros; e rituais sombrios de revirar as entranhas, tudo isso para para proporcionar uma excelente viagem.

NOVO PROJETO DO AUTOR: MAGOS URBANOS

Magos Urbanos é um universo de fantasia de temática adulta, que dialoga fortemente com o gênero que se convencionou chamar  de New Weird.

De abordagem contemporânea, traz elementos tradicionais da literatura fantástica para uma ambientação 100% urbana, centrada em grandes metrópoles reais e ficcionais.

Suas tramas exploram experiências comuns à vida urbana de jovens e adultos, como a violência, integração social, construção de uma identidade, o amadurecimento de ideias e pensamentos, e temas sempre atuais como a liberdade de expressão e o preconceito contra minorias.

Tudo isso vem aliado a um amplo leque de elementos fantásticos, que leva o leitor a reimaginar lugares comuns e transitar entre magos, metamorfos e criaturas fantásticas – aqui presentes em bares, shoppings e estações de metrô – sem perder de vista o sense of wonder ou a sensação de maravilhamento proporcionada pela fantasia.

Os livros não constituirão uma série. Cada um terá uma história completa com início, meio e fim.

Entretanto, o leitor que acompanhar todos os títulos e o material online perceberá uma história mais ampla e aproveitará as nuances das tramas correndo em paralelo.

Embora o objetivo principal do universo Magos Urbanos seja entreter da primeira à última página, o leitor deve estar preparado para ser deslocado de sua zona de conforto enquanto é arrastado para dentro de investigações, dramas e aventuras, com curvas acentuadas que podem levá-lo do humor ao terror em questão de segundos.

Autores que podem servir de referência incluem China Miéville, Neil Gaiman, Philip. K. Dick, Edward Bunker, Anthony Burgess e Graham Greene. Cada um ao seu modo, transgressores da literatura de gênero.

O primeiro livro a ser publicado no universo de Magos Urbanas será Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues, um romance ilustrado por Carolina Vigna-Marú. Ele está em fase de finalização e ainda se encontra sem editora. Em caso de dúvidas, entre em contato. Você pode acompanhar referências visuais do trabalho no Tumblr do autor e ler notícias ficcionais desse universo na página Magos Urbanos.

Publicitário, estrategista de conteúdo, organizador do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira e coorganizador dos eventos Fantasticon e Sarau Fantástico.

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