A Criação – Episódio 6 – Marcelo Amaral

Chegamos a mais um episódio da série A Criação, os bastidores das mentes criativas da cultura fantástica. A série está fazendo um sucesso bem legal entre os leitores do site e trazendo novos leitores, fãs dos autores que participam. E o sexto episódio da série traz o autor Marcelo Amaral, que publicou o livro Palladinum – Pesadelo Perpétuo, pela Llyr Editorial.

Episódio 6 – Marcelo Amaral

Olá galera do Universo Insônia, é um prazer enorme poder fazer parte desse espaço dedicado a falar sobre diferentes processos criativos na escrita. Agradeço ao Tiago Castro pelo convite, que me deixou profundamente honrado.

Sobre o Meu Processo Criativo

Bem, minha formação em design me faz ter uma visão peculiar sobre o processo criativo voltado à escrita, pois apesar de estarmos falando aqui de literatura, ao meu ver, texto narrativo também é “imagem”.

Parece confuso? Eu explico.

Quando digo que texto é também imagem eu não estou me referindo à diagramação, apesar dela certamente ter total influência na experiência de leitura. Na verdade estou falando da “imagem” que chega à mente do leitor através da decodificação do texto escrito.

Quando falo de imagem nesse contexto, falo de “imaginar”, ou seja, do ato de conceber alguma coisa, criá-la e fantasiá-la.

Ao meu ver, é esperado que o leitor, ao decodificar um texto narrativo, busque transformá-lo em imagens, sentimentos e sensações que irão povoar a sua mente durante a leitura. É assim que ele visualizará cenários, personagens, objetos e situações das mais variadas formas; cada indivíduo do seu jeito. Diferentemente do que ocorre num filme, no qual temos todos a visão do diretor, vemos os atores, os cenários, figurinos e maquiagem, no livro temos apenas a narrativa do autor, suas descrições e a imaginação de quem lê.

Em outras palavras, a tarefa de decodificação do texto escrito em imagem e sensação cabe ao leitor, porém, é dever do autor ajudá-lo a tornar essa tarefa o mais fácil e prazerosa possível. É por isso que não podemos sair escrevendo de qualquer forma; é preciso que o autor a todo momento se pergunte: “Ok, essa cena faz muito sentido na minha cabeça, mas se outra pessoa for ler isto ela vai ser capaz de entender? Consegui transmitir em palavras o visual, a atmosfera e o propósito dessa cena?”

Quando falamos de histórias de fantasia, a descrição detalhada de ambientes e personagens se torna ainda mais fundamental. Afinal, aquele universo pode não se parecer em nada com o que existe no mundo real; logo, se esse cenário não for bem descrito, como poderá ser compreendido pelo leitor? Cabe ao autor ser cuidadoso na escolha das palavras; é dessa forma que o universo que ele imaginou poderá ser decodificado pelo leitor como sendo algo crível e substancial, por mais fantástico e surreal que ele seja.

Ou seja, um texto narrativo precisa ser perfeitamente “imaginável”. Em outras palavras: um texto que possa ser facilmente compreendido e transformado em sensação e imagem pelo leitor, como se ele assistisse a um filme em sua mente durante a leitura.

Os passos que descrevo a seguir foram os que utilizei para a criação da trama e do universo de Palladinum, bem como de seus jovens protagonistas: a turma da Página Pirata. Como eu tinha o público infanto-juvenil em mente, mas buscava também agradar aos leitores adultos, procurei:

• Utilizar uma linguagem clara e ágil;
• Dosar bem os momentos de humor, de emoção e de perigo;
• Criar identificação com as personagens principais (o leitor jovem vive situações parecidas, enquanto o adulto relembra sua juventude);
• Criar identificação com cenários (escola, ambiente familiar) e situações (sonhos, pesadelos);
• Criar um mundo fantástico que fosse rico em detalhes e fascinante para qualquer público.

Passo 1 – A Ideia
O ponto de partida para toda história sempre será uma ideia, ainda que se queira contar uma trama baseada em fatos reais. No caso da ficção especulativa, que reúne gêneros como a ficção científica, a fantasia e o horror, essa ideia será a origem tanto da trama quanto do universo que irá se desenvolver e amadurecer, aos poucos, dentro da mente do autor.

Passo 2 – A Busca por Referências
Quando temos uma história pra contar, a pesquisa por referências nos ajuda a saber o que já foi feito para que não façamos mais do mesmo. Por outro lado, as referências são também nossas fontes de inspiração, principalmente aquelas que causam no autor a mesma sensação que ele deseja causar em seus leitores. Sob essa ótica, tudo pode se tornar referência: livros, filmes, seriados, músicas, quadrinhos, desenhos, jogos… A lista é infinita.

Ao escrever Palladinum busquei muitas referências na minha própria infância, como Goonies, Caverna do Dragão, História sem Fim, livros da Coleção Vaga-lume e a série de games Final Fantasy. Escolhi essas referências por trazerem aventuras fantásticas protagonizadas por jovens que dão valor à amizade. São, em sua maioria, narrativas de tom inocente, familiar, com doses generosas de humor e que passam bons valores. É esse clima que, tendo sido transposto às páginas de Palladinum, acaba trazendo boas lembranças ao leitor adulto que viveu a mesma infância que eu vivi.

Em resumo: ao meu ver, as referências servem para nos ajudar a identificar nessas histórias os elementos que causam em nós, autores, o mesmo efeito que queremos causar nos leitores.

Passo 3 – A Sinopse
Munido de referências, o ponto de partida para evoluir a sua ideia deve ser um resumo de toda a história que você pretende contar. Não pense nessa primeira sinopse como sendo aquele texto curtinho que irá parar na capa do seu livro, mas num texto maior, repleto de “spoilers”, que lhe servirá de guia durante a escrita de todo o livro.

Ou seja, essa sinopse é o resumo do seu livro inteiro em poucas linhas, inclusive contando como ele termina.

Passo 4 – A Estrutura da História
Antes de começar a escrever procuro definir o INÍCIO, o MEIO e o FIM da minha história. Isso me ajuda a definir os capítulos que serão necessários à trama. Faço ainda um breve resumo do que acontecerá em cada capítulo do livro. A sequência de capítulos deve visar, de maneira muito resumida:

• Apresentar os personagens;
• Apresentar o conflito e
• Resolver o conflito.

Quando você for sentar para escrever, novas ideias vão entrar na sua história. Os próprios personagens e as situações descritas pedirão por isso. Haverá, ainda, momentos em que você perceberá que esqueceu de detalhar algo. Isso é absolutamente normal. Mas será bem mais fácil achar o caminho se você souber para onde quer ir. Por isso considero essa etapa de estruturação muito importante. Isso sempre me ajudou a não me perder.

Passo 5 – A Descrição de Mundos e de Personagens
Antes de escrever procuro primeiro conceituar o mundo fantástico que pretendo retratar e as personagens que irão povoá-lo, o que
me permitirá descrever pessoas e cenários da maneira mais clara e “imaginável” possível. Essa conceituação envolve 3 etapas:

• Descrição – aparência física, vestimentas, etc (como ele é).
• Perfil – personalidade e histórico (quem ele é).
• Desenho Conceitual – esboço em forma de arte conceitual que me ajuda a imaginar cada cenário e habitante desse mundo. Essa etapa pode me levar a rever as anteriores. Se você não sabe desenhar, busque por fotos de lugares e de pessoas que se assemelham ao que você tem em mente e use-as como referência na hora de fazer descrições.

Personagens com personalidades marcantes e bem definidas contribuem muito para uma boa história. Vale a pena investir um bom tempo definindo quem eles são, como se comportam, como se vestem, como pensam e como falam (isso vai ajudá-lo principalmente na hora de escrever os diálogos). Dessa forma será mais fácil para o leitor se identificar com eles. Ou mesmo amá-los, odiá-los, etc.

Passo 6 – A Hora de Escrever
Como acontece com qualquer outra profissão, só se aprende a escrever bem praticando bastante. Essa é a hora de juntar tudo o que foi levantado até agora e começar a escrever.

Eu recomendo que o iniciante busque praticar a escrita primeiramente dentro do estilo que mais gosta de ler. Creio que, assim, o processo será mais fácil e natural. E lembre-se, a primeira pessoa que mais tem que gostar de ler o seu livro é você mesmo! Do contrário, você correrá o risco de não ter um bom resultado final.

Passo 7 – A Hora de Revisar
Escreveu o livro inteiro até o fim? Hora de revisá-lo. Uma, duas, dez vezes se for necessário. Auto-crítica é fundamental aqui. Recomendo só enviar seu original para uma editora depois que tiver a certeza de que fez o seu melhor. Recomendo também apresentá-lo para familiares e amigos, peça que leiam seu livro e sejam sinceros. Aceite as críticas e trabalhe nelas. Se as pessoas que o conhecem tiverem críticas negativas a fazer imagine a reação de um editor ou de um leitor.

Finalizando
Bem, os passos que descrevi são os que funcionam comigo e que me ajudaram a tornar Palladinum – Pesadelo Perpétuo uma realidade. Mas esses métodos nasceram de uma combinação de experiência pessoal, aprendizado e disciplina. É por isso que recomendo a quem quer escrever que busque por cursos e oficinas especializadas, que pratique muito, escrevendo de tudo um pouco, e que, acima de tudo, leia muito! Mas muito mesmo! =)

SOBRE O AUTOR

Eu sou Marcelo Amaral, nasci em 1976 no Rio de Janeiro, onde moro e atuo como designer gráfico e ilustrador.

Sou formado em Desenho Industrial pela UFRJ, tenho um MBA em Marketing pela ESPM e sou também pós-graduado em Animação e em Ergodesign de Interfaces pela PUC-Rio. Ufa! =)

O sonho de escrever fantasia nasceu de minhas tentativas (frustradas) de fazer Histórias em Quadrinhos e também da minha paixão relacionada a tudo nesse universo: HQs, livros, desenhos, jogos, filmes, séries… Minha infância nos anos 80 me permitiu viver talvez a produção cinematrográfica, televisiva e literária mais fantástica de todas as gerações. Sou suspeito para julgar, mas sei que muitos da mesma idade que eu irão concordar.

Palladinum – Pesadelo Perpétuo é meu primeiro romance.

… E POR FALAR EM PALLADINUM …

— Entendam: o mal existe desde que o bem passou a existir. Quando não havia nada, nada havia. Quando algo surgiu, surgiu com um propósito. Mas qual seria o propósito inicial: fazer o bem ou fazer o mal? E o que são o bem e o mal, senão uma mera questão de ponto de vista? (Rei Poseiron em Paladinum – Pesadelo Perpétuo)

Na cidade de Vale Prateado, os preparativos para a festa de 40 anos do Colégio São João unem os esforços de pais, alunos e professores. Juliana, editora do jornalzinho escolar Página Pirata, está cobrindo o evento junto com seus melhores amigos.

Em meio às comemorações, uma aguardada exposição de artefatos arqueológicos coincide com o início de uma série de eventos inexplicáveis na escola: professores se tornam verdadeiros carrascos, e o pânico toma conta dos alunos quando até mesmo seus pais se voltam contra eles!

A turma da Página Pirata precisa descobrir o que está havendo, e essa busca os levará a um lugar desconhecido, muito além do que podem compreender. Somente ao cruzarem o limiar entre o Mundo Real e o Mundo dos Sonhos e Pesadelos é que os jovens entenderão o que estão prestes a enfrentar: uma batalha épica entre forças desconhecidas e extremamente poderosas!

Estarão eles prontos para as descobertas que terão pela frente?

Confiram todas as novidades sobre o livro Palladinum, booktrailer, primeiro capítulo, galeria de imagens e até toyarts em http://www.palladinum.com.br.

 

Publicitário, estrategista de conteúdo, organizador do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira e coorganizador dos eventos Fantasticon e Sarau Fantástico.

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