A Criação – Episódio 7 – Roberto Campos Pellanda

Olá insone!

O sétimo episódio da série A Criação traz como convidado o autor Roberto Campos Pellanda, autor da série de fantasia O Além-Mar, publicada pela Tarja Editorial. Os dois primeiros volumes da série já foram lançados, Noite sem Fim e O Primeiro Amanhecer. Fique agora com os bastidores da mente criativa de Roberto Campos Pellanda.

Episódio 7 – Roberto Campos Pellanda

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Tiago pela oportunidade.

Como o assunto é bastante amplo, vou focar a discussão em um único aspecto do meu processo criativo: a estruturação da trama. Usarei como exemplo Noite sem Fim, o livro que abre a série de fantasia O Além-mar.

A construção de Noite sem Fim consumiu cerca de dois anos de trabalho. Durante este período, a trama passou por sucessivos ciclos de amadurecimento, revisão e transformação.

Um dos assuntos que mais me interessa no estudo da técnica literária é trama & estrutura. Por isso, fiz questão de construir Noite sem Fim dentro de uma estrutura em três atos tradicional, adaptada às necessidades da trama. O leitor curioso e interessado no assunto reconhecerá os três atos e as passagens (doorways) entre os Atos I-II e II-III no decorrer da história.

Em primeiro lugar, devemos lembrar da função que cumpre a estrutura em uma história: seu papel é facilitar a conexão do leitor com aquilo que está sendo contado. Como isso é feito?

Conformando o enredo dentro de uma estrutura lógica (no caso de Noite sem Fim, a estrutura em três atos), que torne a compreensão e a aceitação da trama o mais natural possível. Isso permite que a mente do leitor se dedique ao que realmente é importante: os personagens.

Comecei a trabalhar a sério na estrutura de Noite sem Fim depois que uma primeira versão já estava concluída. Naquele ponto eu tinha a história, pelo menos em linhas gerais, organizada na minha cabeça.

A partir dali, foi muito mais fácil ajustar o enredo dentro dos princípios de estruturação.

Repensei o material que eu tinha dentro de uma estrutura em três atos.

Para cada um dos atos, tracei objetivos básicos a serem atingidos. Dissecando cada Ato:

Ato I – Objetivos:

1 – Apresentar o protagonista:

O protagonista é o fio condutor da história. É através dele que o leitor se conectará (ou não) com os eventos que estão sendo contados. Por este motivo era fundamental que ele fosse introduzido o quanto antes e que esta apresentação fosse a mais eficiente que eu conseguisse criar.

2- Apresentar a ambientação:

Onde se passava esta história?

Tive um cuidado aqui: era preciso cautela com longas descrições de pessoas e/ou lugares nas primeiras páginas.

Como já mencionei, o fio condutor, o que desperta o interesse verdadeiro na história, são os personagens de maneira geral e o protagonista de forma específica. Pessoas se interessam pela história de outras pessoas. O grande risco do Ato I é cansar o leitor com um longa descrição de um lugar que (ainda) não diz nada para ele.

3- Introduzir a oposição:

O conflito é a alma da ficção.

Se alguém (ou alguma coisa) não estivesse de plantão para impedir que o Martin atingisse os seus objetivos, não existiria uma história.

No Ato I eu queria que o leitor soubesse rapidamente quem estava jogando contra.

4 – Apresentar, também em linhas gerais, o objetivo do protagonista.

Acredito que acompanhar um protagonista com quem foi forjado um elo de empatia, lutar em busca de um objetivo relevante é o alicerce de uma narrativa bem sucedida.

Resumindo, meus pontos obrigatórios do Ato I:

Apresentar o protagonista;

Apresentar a ambientação;

Introduzir, em linhas gerais, a oposição.

Introduzir o objetivo do protagonista.

Exemplo em Noite sem Fim:

No Ato I de Noite sem Fim:

Pela cena de abertura ficamos sabendo:

1 – Que o nosso protagonista se chama Martin;

Ele tem quatorze anos;

Ele ficou órfão recentemente;

Ele está triste.

2- A história se passa num lugar onde é sempre noite (isso não é dito, mas fica evidente pelas referências na descrição).

Deste lugar partem navios que nunca retornam.

O pai do Martin embarcou num deles.

3- Os Anciãos que governam a cidade são citados por alto, mas dá para ter uma ideia de que eles não são legais.

Tem alguma coisa na escuridão do oceano que aterrorizou o Martin (isso fica subentendido).

Nas próximas vinte páginas, ainda no Ato I, ficaremos sabendo:

– Que as pessoas com quem o Martin mora, os Anciãos e as criaturas monstruosas do Além-mar são o núcleo da oposição;

– O objetivo do Martin.

Ato II – Objetivos:

O Ato II é o “corpo” da história; o momento onde a maior parte das coisas
acontece.

O que eu precisava fazer:

1- Aprofundar a relação entre os personagens e a oposição;

2 – Manter o leitor interessado;

Essa era a parte mais importante. Naquele ponto (se o meu Ato I tivesse sido bem sucedido), eu esperava (e torcia!) que o leitor estivesse ligado por um elo de empatia com o Martin. E é está a vinculação que eu tinha que explorar.

Esta era a hora de conceber os incidentes do enredo de forma a colocar o protagonista em perigo crescente.

Desta forma, a máxima do ato II tinha que ser: manter o leitor preocupado.

3 – Organizar os eventos que levariam ao clímax.

Exemplo em Noite sem Fim:

Desde que o Martin coloca as mãos nos livros proibidos (dando início ao Ato II), ele mergulha em uma espiral de eventos cada vez mais perigosos. A aposta é cada vez mais alta, tanto para ele, quanto para aqueles que ele ama.

Ato III – Objetivos:

O que eu precisava fazer:

1- Apresentar o clímax (a batalha final);

O clímax tinha que ser uma consequência natural dos eventos narrados no Ato II.

2- Amarrar as pontas soltas;

Como Noite sem Fim é o primeiro de uma série, nem todas as respostas poderiam (ou deveriam) ser fornecidas.

3- Deixar um toque final.

Optei por fazer isso colocando no final de Noite sem Fim o prólogo do livro dois, O Primeiro Amanhecer. É um capítulo curto, mas que conta uma história que derruba boa parte do que achávamos que sabíamos a respeito do Martin.

Resumindo bastante, foi mais ou menos assim que Noite sem Fim ganhou a sua forma atual.

Ainda faltou falar sobre os doorways, que marcam as transições entre os Atos I-II e II-III. Quem sabe em uma postagem futura?

SOBRE O AUTOR

Roberto Campos Pellanda é escritor de ficção fantástica, autor da série de livros “O Além-mar”.

Apaixonado por livros e louco por uma história bem contada, criou no universo do Além-mar um mundo onde a paixão pela literatura é uma das grandes forças que impulsionam a trama.

Aficionado por manuais de técnica literária, é conhecido pela linguagem simples e precisa, e pelo cuidado na estruturação da trama.

Entre os projetos para o futuro imediato estão uma nova série de fantasia e um título avulso. O combustível criativo sendo sempre, e acima de tudo, a vontade de continuar produzindo.

O ALÉM-MAR

A Vila é uma pequena cidade com características medievais, banhada pelo mar: calçadas de pedra iluminadas pela luz amarelada de lampiões pendurados em postes.

O povo da Vila vive mergulhado em uma escuridão eterna: é sempre noite na cidade. A rua mais importante da cidade é a rua do Porto, que percorre a orla do mar de norte a sul. É lá que fica o píer de onde zarpam os navios. No centro da cidade, a grande Praça dos Anciãos é um local de rico comércio, além de ponto de encontro do povo da Vila. Uma das extremidades da praça é delimitada pela maciça Casa dos Anciãos, local proibido para os cidadãos comuns.

Os limites da cidade (excetuando-se o mar) são marcados pela Cerca. Trata-se de uma pequena estrutura de madeira com menos de um metro de altura, que poderia ser transposta até mesmo por uma criança. Atravessar a Cerca, porém, é estritamente proibido pela Lei Anciã e a sua transgressão é considerada um dos crimes mais graves.

A Vila vive sob a rígida lei dos Anciãos: a cada seis meses um galeão deve partir para o Além-mar.

O ritmo da vida na Vila é ditado pelo zarpar dos navios. A maior parte dos habitantes está, de alguma forma, ligada ao esforço de erguer um navio a cada seis meses.

Os Anciãos governam a cidade com mão de ferro e prezam, acima de tudo, o respeito pelos bons costumes. Não há espaço para discussão e transgressores da lei e da ordem serão encaminhados à masmorra da Zeladoria pelos Capacetes Escuros, a polícia da Vila.

Na Vila não existem partidos políticos, eleições ou debates de qualquer natureza. Desde a época da Fundação, cabe exclusivamente aos Anciãos saber o que é certo fazer. Um Zelador (uma espécie de prefeito) é nomeado pelos Anciãos para a administração das tarefas rotineiras da cidade.

Os navios nunca retornam.

Todos na Vila têm que aceitar esta realidade. Ser escolhido para a tripulação de uma embarcação é o mesmo que receber uma sentença de morte.

A partida (e o sumiço dos galeões) são assuntos proibidos na Vila.

Em conversas de taberna e nos cochichos assustados em ruelas da Vila, especula-se que são as criaturas que vivem no Além-mar as culpadas pelo desaparecimento dos navios.

A criatura que habita o recanto mais sombrio da mente de cada cidadão da Vila tem um nome: Knuck.

Desde o bebê que mal compreende o mundo até o mais valente dos homens, todos têm a espinha dorsal de sua coragem quebrada ao meio por aquele nome.

Ninguém sabe qual a origem dos monstros, o que querem ou por que odeiam as pessoas da Vila com tanta intensidade. Como uma periodicidade imprevisível, os Knucks incursionam na Vila deixando um rastro de morte e destruição. Além disso, as criaturas hediondas têm o costume de sequestrar pessoas e levá-las em seus barcos para o Além-mar.

Para sobreviver à ameaça dos Knucks, a defesa da Vila é um assunto tratado muito a sério. Na orla do mar, ao longo da rua do Porto, foram erguidas uma série de torres de madeira encimadas por um ninho com material combustível, conhecidas como Faróis.
Ver um Farol aceso tem um único significado: os Knucks estão chegando.

Nestes casos, todos com mais de dezesseis anos devem se apresentar na rua do Porto para lutar.

Para saber mais sobre O Além-Mar e todo o universo criado por Roberto Pellanda acesse http://www.robertopellanda.com.br.

Acesse também o site da Tarja Editorial para comprar http://www.tarjalivros.com.br/detalheprod.asp?produto=94.

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Publicitário, estrategista de conteúdo, organizador do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira e coorganizador dos eventos Fantasticon e Sarau Fantástico.

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