[LITERATURA] TRASH Volume I – Zumbis & Tentáculos (Hugo Máximo)

Um livro sobre zumbis ao melhor estilo pulp fiction.

… … …

Trecho do livro

Ele saiu do quarto de hotel com a porcaria do macarrão instantâneo pesando em seu estômago, como se tivesse comido as palhas de uma vassoura molhada. Seu nome era Seth e ele achava que estava ficando louco. Só para conferir Seth pôs a mão no bolso direito do blazer pela décima vez, e pela porra da décima vez constatou que a porra da 44 estava lá, exatamente onde a havia deixado. Carregada, pelo que se lembrava. Então, no milionésimo surto paranóico do dia e, só para constar, ele retirou a porra da 44 do bolso do blazer… e girou o tambor para fora. Seis balas. Seis balas benzidas por um padre. Só para conferir. Só para constar.

É por isso, também, que depois de guardar a arma (ele sabia que em dez minutos iria repetir todo o processo paranóico de novo, e de novo…), verificou o bolso esquerdo do blazer só para conferir se as balas estavam no lugar onde as havia deixado. Elas estavam. Como sempre. Mesmo assim ele sabia que iria continuar conferindo até a ponta dos dedos estarem esfoladas.

No bolso interno do blazer ele encontrou o vidrinho de remédio. Arrancou a tampa com a boca e a cuspiu fora.

Sem nem contar engoliu as cápsulas restantes e imediatamente sentiu o macarrão instantâneo convulsionar em seu estômago. Merda! Seth vai ter uma puta duma azia.

Ele deixou o hotel barato para trás e nos fundos encontrou o Cadillac Deville, exatamente onde o havia deixado. Os pneus estavam carecas e a pintura parecia uma fusão em aquarela de poeira, lama e limo, mas o tanque estava cheio e é isso que importava. Ele entrou e segurou o volante gorduroso entre os dedos que, como sempre, tremiam como o diabo. Ficou olhando a porra do crucifixo pendurado no retrovisor, balançando de um lado para o outro. E se lembrou que não acreditava em mais porra nenhuma. E não acreditava em porra nenhuma pelo simples fato de que não precisava acreditar em porra nenhuma. Ele não acreditava porque ele sabia.

Existe uma puta diferença entre acreditar e saber. E ele sabia. Viu com os seus próprios olhos. Viu as coisas que corriam soltas na noite, devorando os que ainda acreditavam no amor. Naquela época — quando saiu da cidade — quase morto, quando deixou Val-Paso.

Por isso ele não acreditava mais. Mesmo enquanto o crucifixo continuava balançando diante dos seus olhos, como se estivesse discordando. Ele sabia, ele viu e isso bastava. Bastava pelo menos para o que tinha que fazer. É engraçado, sabe? Ele não acreditava em nada disso depois que ouviu falar da merda da guerra no céu e de como os demônios passaram para o nosso plano, bem debaixo das barbas de Deus. Irônico, não é mesmo? Era mais ou menos isso, mas Seth não tinha certeza. Os caçadores não sabiam ao certo, eles apenas reagiam. Seth nunca ouvira nada sobre o Homem Cinza.

Assim, Seth arrancou e começo a cortar a linha negra de asfalto pensando que embora tenha visto alguns, nunca matou um demônio. Não de verdade. Tudo que conseguiu fazer foi acabar com alguns hospedeiros.

Pelo retrovisor viu o hotel ficando para trás, junto com, talvez, sua última noite de sono. Sempre poderia ser a última.

Então acendeu um cigarro sabendo que poderia ser o último que ia fumar. Sempre poderia ser o último, mas isso não é sempre assim? Todas as vezes que saímos de casa, bem, pode ser a última. Acreditem em mim, já vi acontecer e Seth também. Isso fez o macarrão instantâneo rolar dentro do seu estômago. Merda! E lá foi ele verificar a arma novamente.

Seth parou o carro do outro lado da rua e ficou brincando com o isqueiro de metal escovado. Ele viu a porra da mansão despontando por de trás dos muros altos. Do bolso interno do blazer ele retirou um pequeno pedaço de papel com um nome escrito. No papel estava escrito apenas um nome. Um nome num papel. É assim que funciona.

Ele rastreava um hospedeiro, alguém que fora possuído, contaminado, melhor dizendo. E tentava matar o filho da puta antes que as terminações nervosas das coisas que cresciam dentro dele estivessem estabelecidas com o cérebro.

O feto demônio, dentro, comandando o cérebro, fazia o hospedeiro transar com meio mundo, contaminando mais e mais pessoas. Mas não é assim que as coisas sempre aconteciam?

O que Seth tentava fazer era chegar ao fulano antes do demônio dentro dele nascer efetivamente, literalmente rasgando e devorando o cara de dentro para fora. Acredite, não é uma coisa bonita de se ver. E antes de mandar o cara para o além, Seth obrigava o desgraçado a escrever o nome das pessoas que havia contaminado. Assim Seth seguia os nomes e matava os outros hospedeiros e assim sucessivamente até o fim dos dias, dos seus dias, pelo menos. Isso pode parecer loucura. Mas é exatamente assim que Seth levava sua vida, quer acredite ou não, exatamente como um personagem de literatura barata reagindo a eventos, sem um plano de longo prazo previamente estabelecido. Existem pessoas com rotinas tão mirabolantes que fariam sua cabeça girar e Seth é uma delas. Seth seguia pelo mundo matando coisas estranhas e tudo baseado em um nome em um pedaço de papel.

Essa era a jogada, entendeu? As regras do jogo eram bem simples. Anjos e demônios podiam jogar com a humanidade, como peças num tabuleiro de xadrez, mas só influenciar, sacou? Mas algo havia mudado as regras do jogo. Seth nunca ouvira falar do Sr. Gray, muito menos da sua interferência nestas regras sagradas. Mas…

Tanto anjos, quanto demônios, não podiam interferir diretamente. Pelo menos era o que costumava acontecer. Mas o que aconteceu? Eles foderam tudo! Simples, os demônios descobriram (e não me pergunte como), que poderiam nascer para o nosso mundo, e o parto não era nada bonito. Nada mesmo.

De arma em punho Seth saltou o muro. Haveria seguranças. Ele sabia disso. Só não sabia se queria matá-los. Talvez ainda fossem humanos. E mesmo sendo homens, isso não faria nenhuma diferença. Ainda assim poderiam estar contaminados. Homens ou mulheres, não importava. Demônios não tinham restrições quanto ao sexo dos hospedeiros, a coisa crescia dentro da pessoa, independente de um útero.

De repente, percebeu que não estava sozinho. Ouviu algo bufando na noite. Algo que vinha correndo e que não estava sozinho. Então vindo apenas como olhos brilhantes no escuro, Seth descobriu que seus problemas eram bem piores.

Três cães saltaram do escuro, quase ao mesmo tempo. Ele disparou sem pensar. Cada disparo seguido de um uivo agudo e doído. O primeiro dobermann rolou no ar, contorcendo-se como um bailarino. O segundo ele acertou antes de saltar. Sua cabeça explodiu deixando apenas um pescoço fumegante no lugar. O terceiro o atingiu em cheio. O disparo brilhou perdido para o alto.

A 44 voou para longe enquanto Seth se atracava com o desgraçado.

… … …

# Para comprar o livro http://clubedeautores.com.br/book/7924–TRASH_Vol_1

… … …

# Mais sobre o autor e a obra em http://matrixordinaria.blogspot.com

Publicitário, estrategista de conteúdo, organizador do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira e coorganizador dos eventos Fantasticon e Sarau Fantástico.

Twitter LinkedIn Google+ 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...