Vampiros e outros assassinos

http://3.bp.blogspot.com/-do2AOH7ghlk/Te7KjwCPkDI/AAAAAAAAAoA/LgzPYFfpYNg/s1600/livro-vamp.jpgTrecho do livro “Vampiros e outros assassinos” de Afonso Junior Ferreira de Lima.

O Salvador

Vampiro quase novo. Eu não era esse poder ubíquo, não tão vazio e unânime, nem imaginava que a vontade produtiva puritana e contra-reformista, mudando o mundo e os corações para salvar-se do Inferno, substituiria tão bem a caridade externa dos senhores e a repressão do corpo pelo corpo como Tábua para a exclusão.

Nesse mundo em transição, estava cansado da pele de lagartixa da Rainha das Fadas (um dos poucos capazes de ver seu caminho invisível pelos séculos), dos Lobos (pelo menos conseguira fazer a Inquisição matar um deles, aquele velho), e da luta pelo “Sangue de Ísis”, perigoso, como um templário buscando um caldeirão celta da eterna vida. Até os discípulos vândalos, os Capas Pretas, podiam entediar, eu queria mais.

Estava curioso, queria umas férias, viera para a “Boca Infernal” da Província de Santa Cruz, mas então encontraram um corpo dentro de um saco na mata. Podia ser do índio Salvador, desaparecido.

Eu era suspeito, claro. E a Maldita chegara. “Lá vêm os diabos da Inquisição!”, as pessoas diziam e chegaram a apedrejar um inquisidor no Rio. É claro que essa coisa de índios cantando, procissão com bandeiras, anjos bailarinos, diabos, um rabi com a “Tourá”, dança judia, uma Tentação requebrando seminua, São Sebastião peladinho e arcos e espadas em punho não podia dar certo com eles.

Os jesuítas, nesta terra sem bispos, de capelões de fazenda, haviam criado cedo o Triunfo Eucarístico – berimbaus, maracás e taquaras. Era melhor pegar uma ideia, que pegar uma coisa. Isso nem Maquiavel me ensinara: dominar seria recompor um modo de ver, percepção, impor um discurso pela lógica aparente, mente-microspópio, mente-pedra. Viria a destruição da auto-afirmação por um simulacro dela mesma, superando minhas expectativas. Nosso culto às imagens precisa de solidão e o poder ainda não quebrara as comunidades.

Por enquanto, o índio Salvador, desse incrível culto Mãe-Filho sincrético – no qual o senhor da Casa Grande, no catolicismo de família, se ajoelhava – sumira como mágica e tínhamos uma revolta indígena em gestação. Um senhor se ajoelhava para o Filho mestiço? Quando os orixás da terra viravam orixás da guerra, era preciso mesmo santos negros como degrau de cristianização.
(…)

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Nota enviada por Afonso Jr. Lima
copyleft (uso não-comercial)

Publicitário, estrategista de conteúdo, organizador do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira e coorganizador dos eventos Fantasticon e Sarau Fantástico.

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